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Os dados que mostram o sério declínio da vida selvagem (e por que a América Latina é a área mais afetada)
17/10/2022 05:51 em Que Triste

Acontece em dezembro um evento global do interesse de milhões de pessoas.

Não, não é a final da Copa do Mundo no Catar, mas mais um encontro internacional que disputará com o futebol a atenção do público: a Conferência das Partes da Convenção sobre Biodiversidade ou COP15, que acontecerá em Montreal, no Canadá.

O objetivo da cúpula é estabelecer metas e mecanismos para proteger a biodiversidade em todo o mundo, e a urgência de tomar medidas ficou ainda mais clara com o novo Relatório Planeta Vivo que acaba de ser divulgado.

Baseado em um índice compilado a cada dois anos pela organização World Wide Fund for Nature (WWF) e o zoológico de Londres, o documento revela um sério declínio na vida selvagem. E a queda mais acentuada foi, de longe, na América Latina e no Caribe.

A equipe da BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, selecionou dois pontos centrais do documento e explica abaixo o que significam.

69%: a queda média globalmente

As populações monitoradas e incluídas no relatório foram reduzidas entre 1970 e 2018 em uma média de 69% em todo o mundo.

Para entender corretamente este fato fundamental, é necessário fazer dois esclarecimentos, explicou à BBC Mundo Luis Germán Naranjo, diretor de Conservação e Governança da WWF na Colômbia.

Em primeiro lugar, o relatório fala apenas de vertebrados. E dentro destes, considera apenas 32 mil populações monitoradas pela ciência e que correspondem a 5.320 espécies em diferentes partes do mundo.

Gráfico do Relatório Planeta Vivo mostrando a redução de animais em todo o mundo.

"Para as pessoas terem uma ideia disso, é preciso entender que só as aves, por exemplo, abarcam cerca de 11 mil espécies no mundo inteiro. Se adicionarmos anfíbios, além de peixes, mamíferos e répteis, estamos falando de mais de cem mil espécies", disse Naranjo.

"Aqui estamos falando de uma amostra."

Gorila de montanha em Uganda, da espécie Gorilla beringei beringei

CRÉDITO,WWF

Legenda da foto,

O relatório fala apenas de 32 mil populações monitoradas de vertebrados. E as porcentagens de declínio referem-se a reduções nas populações, não no número de indivíduos.

O segundo esclarecimento é que o declínio médio de 69% globalmente não se refere ao número de animais individuais, mas às porcentagens pelas quais as populações monitoradas foram reduzidas.

O relatório explica essa diferença com um exemplo esclarecedor.

Imagine que monitoramos três populações: pássaros, ursos e tubarões. As aves diminuem de 25 para 5, uma queda de 80%. Os ursos caem de 50 para 45 animais, uma redução de 10%. E os tubarões caíram de 20 para 8, um declínio de 60%.

Neste exemplo, a redução média no tamanho da população é então de 50%. Mas o número total de animais caiu de 150 para 92, uma queda de cerca de 39%.

Desmatamento na Amazônia

CRÉDITO,WWF

Legenda da foto,

Amazônia: o desmatamento impulsionado pela expansão da pecuária e da agricultura é uma das principais ameaças à biodiversidade.

94%: dados alarmantes da América Latina e Caribe

Quando o declínio é observado não globalmente, mas regionalmente, o maior ocorreu na América Latina e no Caribe: 94%. Esta região é seguida pela África com 66% e Ásia e Pacífico, com 55%.

"O número é alarmante", disse Naranjo. "É claro que é apenas uma pequena fração da biodiversidade, mas se assumirmos que a situação é semelhante para outros organismos não avaliados, é realmente assustador".

O representante da WWF na Colômbia deu à BBC Mundo dois exemplos da crise da biodiversidade na América Latina.

"A situação dos anfíbios é realmente séria, principalmente nos ecossistemas montanhosos do norte dos Andes."

Entre as causas desta crise está, por um lado, a expansão da fronteira agrícola. "E outro fator é a mudança climática que aparentemente contribuiu para a disseminação de um fungo que afeta os anfíbios".

Golfinho do rio Amazonas, Inia geoffrensis, em Novo Airão, na Amazônia

CRÉDITO,WWW

Legenda da foto,

Golfinho rosa ou boto na Amazônia. As espécies aquáticas estão seriamente ameaçadas na América Latina

O segundo exemplo são as espécies de peixes de água doce.

"As espécies migratórias estão sendo muito afetadas na América Latina e isso é grave porque, por exemplo, nas bacias do Orinoco e Amazônica há grandes migrações de peixes. Muitos estão sendo afetados pela modificação dos canais dos rios por barragens e também pela poluição, principalmente pela contaminação por mercúrio."

Gráfico do Relatório Planeta Vivo mostrando a redução de animais na América Latina e no Caribe.

Quanto à Amazônia, o relatório Planeta Vivo reúne dados publicados em 2021 por um grupo de especialistas do Painel Científico da Amazônia, segundo os quais 17% da bacia amazônica foram desmatados e outros 17% do ecossistema estão degradados.

COP 15 e a busca de soluções

Jovem na cidade Leticia, na Colômbia, com roupas típicas e uma coroa de penas

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Legenda da foto,

O relatório destaca que as crises de biodiversidade e mudanças climáticas estão interligadas. E para combatê-los, o papel dos povos indígenas é fundamental.

"A COP 15 é uma enorme oportunidade que temos pela frente para estabelecer metas vinculantes e ambiciosas que levem a investir os recursos necessários para deter a perda de biodiversidade e começar a recuperá-la", disse Naranjo.

"Isso soa muito romântico, mas há algo que me parece importante. Neste ano, as Nações Unidas reconheceram o direito universal a um ambiente saudável e limpo. Com a pandemia de covid-19, a humanidade aparentemente começou a perceber sua dependência de um ambiente saudável.

"E isso é algo que sempre foi o pilar das cosmogonias dos povos indígenas ao redor do mundo. Parece que estamos finalmente adotando esse tipo de pensamento e para mim isso é esperança."

Fonte: BBC Brasil

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